UMA ATLETA DA LINGUAGEM

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Entrevista a Catarina Real (n. 1992), vive e trabalha em Lisboa, Portugal.

A artista lisboeta Catarina Real encarna a ideia de Gilles Deleuze do escritor como um “atleta da linguagem”. Uma apaixonada por basquete, a sua prática artística multidisciplinar atravessa a cromoterapia, o desenho, a poesia e a instalação, estendendo-se muitas vezes pelas paredes, pelo chão e até pelo teto. Conhecemo-nos pela primeira vez em 2023, na Residency Unlimited, em Nova Iorque, enquanto fumávamos um cigarro à porta do grande edifício de tijolo, na luz fresca de setembro. Anos mais tarde, voltamo-nos a encontrar no seu estúdio em Lisboa. O espaço lembra quase um quarto de criança: brinquedos, vernizes, contas e cordas espalhados pelo chão, convidando à espontaneidade, ao jogo e à alegria.

Ficam aqui as suas belas respostas:

Olá, Catarina! A tua prática artística é paralela à tua investigação académica. Ambas as áreas se complementam? De que forma?

Mais do que se complementarem, elas são uma só. A curiosidade que as move é a mesma. Por vezes as investigações tomam diferentes objectos como alimento - sejam eles livros, exposições, conversas de café; as mais variadas formas que a afecção pode tomar - e por vezes têm como consequência diferentes resultados também - textos académicos, livros, exposições, entrevistas...


O teu trabalho expande-se por paredes, chãos e até tetos. O que a levou a evoluir do desenho e da pintura para peças de instalação?

Não desconsiderando a raíz da vossa pergunta, mas interligando com a minha resposta anterior; nunca me preocupei com os formatos que os objectos que surgiam de um processo de investigação contínuo. Por essa razão não vejo um como a evolução do outro, ou vice versa. Eles acontecem num continuum. Por vezes são as circunstâncias que ditam as adaptações do pensamento - se tenho mais espaço posso responder de uma forma mais espacial, se tenho apenas um espaço de secretária as respostas conformam-se a essa condição inicial.


As tuas peças são frequentemente participativas, táteis e lúdicas. Porque gostas de envolver diretamente o público? Podes explicar o aspeto “comunitário” da tua prática?

Tenho para mim que o trabalho que vou fazendo é, desde a casa de partida, colectivo. Tudo o que vivi, e todas as pessoas com que partilhei essas vivências - de amigos, família a autores - são co-autores do que quer que seja que estou a fazer. De certa forma, também acredito que serei futura co-autora das vivências ou criações desse público que toma contacto com o que faço.

E, nesse sentido, a partilha do comum - o aspecto comunitário que referem - acontece implicitamente e não é necessariamente programático. Creio que o mesmo acontece com a ludicidade que o meu trabalho pratica ou sugere; é o prazer que motiva o meu fazer e todos estes co-autores fomentaram a minha experiência sensível do mundo e - especulando um pouco - creio que a é a canalização desse prazer que me leva à criação de objectos que prezam o espaço da brincadeira.

A brincadeira é um dos métodos de investigação mais eficazes e primeiro, permitirmo-nos a que aconteça e segundo, engajarmo-nos realmente no seu acontecer pode ser realmente exigente.

Na exposição Highly Confusing Times, criaste todo o mural num único dia. A tua técnica é bastante intuitiva ou envolve muita preparação? Podes guiar-nos pelo processo de desenvolvimento dos teus Focused Drawings, desde a origem até à finalização?


Estou sempre a saltitar entre as vossas palavras; a intuição exige muita preparação ou, melhor dizendo, muita prática. Se tiver de generalizar, posso dizer que treino consistentemente para que os gestos ou as tomadas de decisão sejam ágeis e não dolorosas. Sempre gostei da colocação de Deleuze dos, no caso, escritores, como grandes atletas da língua; os que procuram a língua dentro da língua e que para tal têm de desenvolver o músculo da escrita, tal e qual outros desportistas.

Na exposição Higly Confusing Times apresentei “quase nada muito pouco”, uma instalação-esquema com desenhos de 2016 a 2024. Cada um dos desenhos pertence a uma série mais alargada de exploração de diferentes modos de atenção como é o caso das séries “desenhos desatentos”, “desenhos concentrados”, “desenhos divertidos”, “formas e estruturas”, etc.

A pintura mural realizada in loco pertence à série “desenhos concentrados”, que faz uso de discursos alheios, aos quais se presta atenção - por via da audição - à medida que o desenho se constrói, actuando a mão e a percepção do discurso em frações de tempo não coincidentes. Este foi realizado prestando atenção a uma entrevista de João Fiadeiro. Como a acção exige a atenção a um objecto áudio de duração circunscrita e a duração do áudio dita a duração da acção, não haveria hipótese de me demorar mais!



Durante a nossa visita ao estúdio, mencionaste uma “relação íntima” de certas escritoras com a linguagem. Pode desenvolver esta ideia, bem como a sua própria relação com a escrita? De que forma o seu trabalho escrito está ligado à sua produção visual?

Octávio Paz disse que os poetas não têm biografia, que é a sua obra a sua biografia.

E acrescentou que “Pessoa, que duvidou sempre da realidade deste mundo, aprovaria sem vacilar que se fosse directamente aos seus poemas, esquecendo os incidentes e acidentes da sua existência terrestre. Nada na sua vida é surpreendente - nada, excepto os seus poemas.” Octávio e Fernando foram homens notáveis.

No caso das mulheres notáveis, é também verdade que a sua biografia é também a sua obra. Mas é preciso notar que, juntamente com esta proposição, os incidentes e acidentes da existência das mulheres notáveis constituem um diferente passo narrativo e portanto as suas obras são simultaneamente essa peça notável que fazem de si parir tanto quanto as suas vidas vividas e os seus passos, concretos, verificáveis, definem o paradigma porvir, e serão estes que justificarão a viragem a uma arte generosa e não só cuidada como cuidadora, que estabelece outras éticas de acção. É como redobrar a notabilidade da frase inicial, e que a potência da notabilidade estabelecerá o novo paradigma do que é ser-se notável.

Que Octávio e Fernando foram homens notáveis, digo-o inquestionável. E inquestionável também que não será necessário registar o significado de homem. Caso Octávio e Fernando tivessem sido mulheres notáveis teria sido necessário explicar-se, antes de ser-se notável, o que significa ser-se mulher. Como resposta a esta pergunta, poder-se-ia escrever um tratado, e por isso respondo-vos apenas uma pequena vírgula... Essa relação íntima - entendendo eu a linguagem, a língua, os idiomas e dialectos (e as pequenas nuances entre si) como um dos grandes sistemas com potencial modelador da existência humana - acontece pela experiência da própria linguagem nos seus, nos nossos, corpos e na transducção dessa experiência de novo, em palavras e gramáticas. E é lindo, e absolutamente tocante para mim, absorver essa escrita como um esboço de esperança.

A relação entre a escrita e a produção visual - embora no caso da minha prática elas encontrem relações também formais, nos casos de algumas obras que poderiam ser acondicionados na gaveta da poesia visual ou mesmo poesia concreta - dá-se para mim nesse ponto de mudança paradigmática e do que rege a criação em si mesma.


Ultimamente, tem-se interessado por cromoterapia - o uso de cores com fins terapêuticos. Podes falar-nos mais sobre esse interesse e quais projetos surgiram a partir dele?

A Terapia da Cor, como tenho vindo a chamar-lhe, começou como uma brincadeira e uma reacção brincalhona ao contacto com práticas da medicina chinesa. Fiquei fascinada com a forma como tudo é considerado de forma relacional, os eventos e/ou sintomas são considerados como parte de um sistema, que é diferente de corpo para corpo e de vivência para vivência. Um sintoma não é expressão directa de uma causa, mas sobretudo como expressão de um desequilíbrio nesse sistema, e a reparação é também dinâmica.

A primeira expressão deste fascínio na minha prática aconteceu com a publicação “O Fogo no Fígado”, em 2022. Na nota descritiva final lia-se “O FOGO DO FÍGADO é uma publicação que reúne recortes e anotações fugazes e fogosas, moderadas por uma revisão púdica da vesícula, que celebra o controlo do incêndio mas não o fim do fascínio pelas chamas, labaredas, línguas de fogo, fósforos, isqueiros, acendalhas e ademais material incendiário. Celebra também o passar de três décadas, a propósito da exposição-festa-de-aniversário A MINHA ESQUERDA É A TUA DIREITA.* (*frase ouvida no longínquo 2017, aquando da leitura de O Azul Imperfeito. Fruto da incapacidade de coordenação a carregarem uma mesa, um de dois jovens resolveu sucintamente parte substancial dos equívocos do mundo. Bem-haja!”)

Esta foi também uma exposição que utilizei como forma de reparação da minha relação com o Vermelho. Até então, nunca usava a cor vermelha (assim como a cor castanha, que é outra questão), alguma força bloqueava a nossa relação e não conseguia encontrar o lugar para a enquadrar em lado nenhum. Inclusive, durante anos, oferecia todos os lápis e marcadores vermelhos que vinham dentro dos conjuntos, porque nunca os utilizava.

Entre 2022 e o presente, tentando mimetizar esse funcionamento dinâmico entre as variáveis, comecei a desenvolver a Terapia da Cor, fazendo uso das ferramentas e do conhecimento que tenho e pensar como os poderia colocar ao dispor das outras pessoas, como forma de desbloquear pequenas fricções nos seus próprios sistemas. É resposta à minha preocupação com os que me rodeiam, e com a apreensão cada vez mais avultada, quanto ao desequilíbrio emocional e ao extremo cansaço e desilusão que lhes, e me, assola.

Esta terapia experimental faz uso da minha capacidade de observação, uma forma de ver que vem da aprendizagem do desenho e que desenvolvi na minha dissertação de mestrado sob o “nome-afecto” de postura, de ferramentas de composição de imagens, do dinamismo entre enquadramento, formas, cores e matéria, e do interesse em que tenho vindo a investir em práticas coreográficas e entendimento alargado da coreografia social. Toma forma em prescrições terapêuticas que são minuciosamente dirigidas (em formato físico, enviado por correio) a cada um dos meus pacientes, prescrições essas que tentam de forma mais ou menos interventiva agir ou influenciar os seus sistemas. Depende, naturalmente, do envolvimento e receptividade dos respectivos pacientes, mas posso dizer que tenho já vários casos de sucesso.

Tem sido muito bonito compreender com maior profundidade que um elemento fulcral do sistema artístico como o é a cor, vive da inalienável relação de cada um de nós com a mesma, e que cada uma dessas relação envolve a narrativa pessoal e as estórias e preferências que daí decorrem, e que essas relações estabelecem uma correlação com o funcionamento social (note-se que a compreensão e a importância simbólica das cores não é estanque, como se pode entender numa perspectiva histórica) e com a linguagem em si. A cor é, em si, um evento, ou fenómeno. Acontece como resultado da relação entre luz e matéria, e reclama importância social quando nos envolve nesse evento em constante reajuste.


Além de artista, também és desportista. A tua experiência como jogadora de basquetebol já influenciou os teus projetos criativos?

A minha personalidade foi extremamente moldada pela prática do basquetebol. Se acredito que a minha história familiar estabeleceu as características da minha sensibilidade - o facto de vir de uma família de origens humildes, maioritariamente agricultores, e muito grande, o que fazia com que as brincadeiras não fossem solitárias; as noções de propriedade, de partilha e apoio mútuo se moldassem desde cedo, e que o contacto com as matérias, a terra, as plantas, os animais fundasse uma predisposição táctil... Acredito também que foi esta prática desportiva que treinou essa sensibilidade a adaptar-se à inevitável colectividade da existência, e ao treino da compreensão dos limites individuais e à força colectiva.

Quando comecei a jogar basquetebol, o acesso a este desporto era gratuito, o que fez também com que as minhas companheira de equipa fossem dos mais variados estratos sociais. Tornava-se claro que, do balneário ao campo, nada disso era uma questão e que a responsabilidade era distribuída por todas - a famosa frase “there's no I in Team” - mas também de uma forma maleável; nem sempre estamos com a mesma capacidade de estar presentes ou disponíveis, e isso fez-me compreender que um colectivo não vive de uma distribuição equitativa dos seus papéis, vive da maleabilidade de dar de si o que é possível, e distribuir os papéis de acordo com as capacidades e disponibilidades dos seus elementos.

Mais do que tudo, fez-me experienciar a amizade como algo que alimenta a energia, e a felicidade extrema de pertencer e de ser amparada num grupo.

Naturalmente que há também questões técnicas que se aliam à prática de observação que é para mim fulcral na criação artística como o são o treino da visão periférica e o entendimento e treino de coreografias desportivas, as tácticas de jogo e a adaptabilidade das mesmas à reacção da equipa adversária, no caso.

Creio que, apesar da primeira parte da minha resposta vir de um lugar extremamente emocionado, ambas as aprendizagens se têm a vindo a expressar na minha prática artística, às vezes de forma mais expressa, outras de forma implícita.


Além disso, diriges a tua própria editora, a Edições da Ruína. Estou curiosa para saber como essa experiência pode ter afetado a tua visão do livro - um elemento frequentemente central nas tuas obras - como objeto artístico. Podes desenvolver esse assunto?

As Edições da Ruína é um projecto que é muito querido, e ao qual dedico uma grande parte do meu tempo, apesar de ser um trabalho voluntário, exigente, e não remunerado. Tenho vindo a fazer o papel de coordenadora editorial, creio que o posso nomear dessa maneira, selecionando juntamente o Gonçalo Duarte os projectos a serem editados e a reunir autores com designers e outros intervenientes; e também o papel de editora na parte de texto.

Este último, tenho vindo a descobrir cada vez melhor, dá-me um imenso prazer. Entrar em textos alheios com a vontade de contribuir para que ganhem um corpo sólido, e pensá-los como um todo, como um livro, tem sido uma enorme aprendizagem para a minha própria prática da escrita. Passei a entender melhor, com treino, o que significa construir um livro e o que quais as formas como este objecto pode ser entendido e recebido por diferentes leitores.


Na verdade, conhecemo-nos em Nova Iorque, onde estavas a fazer uma residência na Residency Unlimited. Foi um momento muito feliz :) Como é que essa experiência te afetou, tanto pessoalmente como profissionalmente, enquanto artista?

Apaixonei-me por Nova Iorque, posso dizer. É uma cidade com um vigor impressionante onde, no campo da criação artística, encontras os teus pares independentemente de qual o nicho em que melhor te inseres. Há imensos projectos dedicados especificamente a artistas que fazem livros, um lugar intermédio entre a literatura e outros campos artísticos. Tive também a sorte de conhecer pessoas que me continuam a ser muito queridas e com quem fui aprofundando relações de amizade.

Profissionalmente, tive a oportunidade de mostrar o meu trabalho em várias exposições, em participar em feiras de edições e de ter contacto com outras formas de fazer e pensar a produção artística, a riqueza desse contacto com o que não é semelhante é impagável, e embora não seja expressamente claro como terá agido sobre a minha forma de fazer, estou certa que teve impacto.


Então, conta-nos: tens planos para continuar a explorar o estrangeiro? Onde te vês como artista nos próximos anos?


A verdade é que esta resposta está intrinsecamente ligada à anterior; no ano lectivo de 2026/2027 começarei um mestrado nos Estados Unidos, uma vez que tive a felicidade de ser agraciada com uma bolsa da Fundação Carmona e Costa em parceria com a Fullbright.

Para além disso, ainda no mês de Março deste ano, inaugurarei uma exposição individual na galeria espanhola Ángeles Baños, com quem estou muito contente por ter recentemente começado a trabalhar.

Nunca fui dotada de uma imaginação com imagens muito concretas, isto para vos dar nota de onde me imagino nos próximos anos, mas posso dizer-vos que tenho um grande prazer por ir explorando diferentes contextos, novos lugares. É inevitável que as diferenças culturais se expressem na organização e formas de pensar, e ter contacto com essa diferença atiça cada vez mais a minha curiosidade. Espero que esse futuro passe por aí, de forma mais acentuada.

Entrevista por Victoria Álvarez Conde. 09.03.2026